Lucas Di Grassi, um piloto além do seu tempo

Com 22 anos de carreira no automobilismo, Lucas Di Grassi é um dos maiores nomes da recente Fórmula E e um nome forte na história da Fórmula 1. Das pistas de Kart ganhou o mundo da velocidade, empreendedorismo e da tecnologia. O piloto foi campeão pan-americano de Kart (2000), encerrando com grande estilo sua participação nesse circuito de 1997 a 2000; teve algumas vitórias em diversas categorias; e manteve-se nas três primeiras posições na Fórmula Renault Brasil, F3 Sulamericana, entre outras. Uma trajetória de destaque, sucesso e inovação do atleta que sempre se empenhou ao máximo em tudo que acreditava desde que se envolveu com essa modalidade esportiva aos 13 anos, por influência do pai, Vito. Com esta garra, empenho e visão, deu um salto em 2014 para a Fórmula E (FIA Formula E Championship), categoria de automobilismo organizada pela FIA (Federação Internacional do Automóvel) com carros monopostos, movidos exclusivamente à energia elétrica, que ajudou a construir após convite do empresário espanhol Alejando Agag. O piloto brasileiro tem assim conseguido, desde muito cedo, ultrapassar obstáculos, vencer as expectativas de nova categoria e mostrar a importância dos desenhos de inovação para manter a liderança das futuras gerações de corredores nas pistas de qualquer Fórmula no futuro. Membro da única equipe alemã no grid da Fórmula E, a Audi Sport ABT Schaefflerport, Di Grassi deixou seu nome nas pistas e nos pódios, mas agora, está escrevendo também sua marca inovadora numa categoria de tecnologia avançada, em que humanos e não humanos (robôs) dividirão os carros autônomos e controlados manualmente em corridas, que ajudarão a acelerar melhorias para a segurança nas estradas, proporcionarão uma nova forma de entretenimento e trarão novas possibilidade de teste de desenvolvimento de sistemas de direção automatizados. Confira nesta entrevista exclusiva a carreira, a participação como piloto na categoria e os planos do brasileiro Lucas Di Grassi da equipe Audi.

Claudio Barreto – Quais os motivos que o levaram a entrar na Fórmula E?

Lucas Di Grassi – Em 2012 fui convidado pelo Alejando Agag para participar da construção da categoria. Eles precisaram de alguém para ajudar no desenvolvimento do carro e também para orientar nas questões relativas à competição em si. Eu fui o terceiro funcionário deles. Ajudei até pouco antes do lançamento, quando saí da organização para me dedicar somente à carreira de piloto na própria Fórmula E. Além disso tudo, eu acreditava que chegamos a um ponto de mudança na forma de nos locomover, o que está acontecendo agora mesmo. Achava que a Fórmula E seria uma boa oportunidade de trabalhar esse assunto junto a todos, público e empresas.

Claudio – A partir da sua entrada na Fórmula E, quais os avanços tecnológicos que ocorreram na categoria?

Lucas – Muita coisa foi acontecendo, mas a principal foi a troca do carro agora em 2019, totalmente novo e mais moderno. Outra foi a utilização de uma nova bateria, que agora dura toda a corrida. Antes tínhamos que trocar de carro no meio da corrida.
Em relação à duração da bateria, há muito investimento em todo o mundo para acelerar a duração das baterias. Existem tecnologias sendo testadas que podem fazer uma bateria durar dez vezes mais. Acredito que as descobertas vão aparecer logo, pois há um enorme interesse comercial nessa questão. E isso será muito bom para o meio ambiente.

Claudio – Quais as maiores dificuldades que a Fórmula E enfrenta atualmente?

Lucas – A Fórmula E tem apenas 4 anos de vida e já conta com mais fábricas que a F-1, Nascar e F-Indy somadas. A dificuldade é não se perder nesse crescimento exponencial e tirar o foco da modernidade, para agradar aos puristas. A categoria precisa ficar focada no desenvolvimento do futuro, que foi o seu forte desde o início.

Claudio – Podemos esperar na F-E a tecnologia de carros autônomos?

Lucas – A Fórmula E não terá carros autônomos. Essa especialidade é da Roborace (www.roborace.com), que é uma categoria que eu estou criando agora e vai estrear provavelmente em maio. Serão corridas assim: o piloto humano faz a primeira parte, para para um pit stop, e o robô termina a prova com o que aprendeu enquanto o humano estava ao volante.

Claudio – A maior preocupação no desenvolvimento dos carros é a segurança, velocidade ou autonomia?

Lucas – Todos estes itens são igualmente importantes. Não há uma diferenciação. Mas a velocidade do carro poderia ser muito maior. Mas por corrermos em pistas de rua, optamos por restringir isso, pois seria muito perigoso já que os circuitos não suportariam carros tão velozes.

Claudio – Quais as diferenças de pilotar na Fórmula 1 e Fórmula E?

Lucas – É muito diferente, por que o conceito dos carros é muito diferente. O F-1 é mais potente, por diversas razões, como as restrições citadas acima. Além disso, o F-1 custa muito mais e pode ser desenvolvido quase que por completo pelas equipes. Na F-E, há um carro padrão fornecido para todos e os times só podem desenvolver o power train. Então, é como comparar uma laranja com melancia: as duas são frutas, mas não têm nada em comum.

Claudio – A preparação física da Fórmula E é a mesma da F1?

Lucas – Sim, basicamente a mesma.

Claudio – Sente falta do ronco do motor da F1 em sua categoria?

Lucas – Não. Novamente, é como comparar coisas diferentes. Motor elétrico tem um barulho muito menor. Mas tem gente que gosta mais do som da F-E do que da F-1. Depende da pessoa com quem você está falando. Mas corrida é corrida, com ou sem barulho.

Claudio – Os carros urbanos estão mudando rapidamente, e o maior responsável pela evolução da tecnologia vem dos carros de F-1. Com a entrada da F-E, como você vê o futuro dos carros urbanos?

Lucas – A Fórmula 1 já não contribui com mais nada em relação ao desenvolvimento de tecnologias para os carros de rua. Daí o interesse das fábricas pela F-E. Pois o futuro da mobilidade é a motorização elétrica. É por isso que a F-1 está discutindo tanto seu reposicionamento. Ela não pode continuar desligada do que a sociedade precisa desenvolver em seus veículos. A F-E foi criada para oferecer essa oportunidade às fábricas.

Claudio – Com a evolução dos motores, na sua opinião, a Fórmula 1 tem seus dias contados?

Lucas – Não acredito nisso. Haverá a F-1, a F-E, categorias de turismo elétricas e à combustão, como a nossa Stock Car. É tudo uma questão de adaptação, mas haverá lugar para todo mundo.

 

Entrevista para Terra Magazine no caderno Dirija Auto por Claudio Barreto e fotos Audi Sport

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