Não quero faca nem queijo – Por Luciana Sultanum

Por LUCIANA SULTANUM

Quero a fome. Assim Adélia Prado falou dos seus quarenta anos. E eu venho justamente falar das minhas fomes na mesma idade. É, parece que depois de um certo tempo, quando não nos sentimos mais na obrigação de alimentar as expectativas dos outros, queremos entender de quê é a nossa fome. Vou levar essa fome para o estômago, lugar mais fácil de lidar que as fomes da alma.

Batata assada com queijo e ovo cocotte  Foto: Luciana Sultanum

Pois bem, depois de achar que tinha que ser moderna, pós-moderna, vanguardista, descolada, aprendi que sou antiga. Não careta, mas apreciadora de algumas tradições. Como chef, já tentei ser muitas coisas, até entender que sou mais Bocuse que Adrià. E aceitei isso. Então, na cozinha, a minha fome é de simplicidade, de tradição, de ossos, de espinhas. E por mais que as ousadias me visitem muitas vezes, é o conforto das ideias clássicas que me aquecem a alma e me deixam mais à vontade.

Luciana-Sultanum

Obviamente, o período que passei na França me marcou muito, mas hoje vejo que a minha cozinha (ou provavelmente a de qualquer chef) começou a ser construída muito antes. As nossas referências não vêm somente do período da formação técnica e profissional, elas vêm também da infância. Na casa do meu avô psicanalista, aprendi o que era o “molho do assado”, a beber sangria, a comer de sobremesa maçãs assadas no vinho do Porto ao invés de sorvete (não que eu gostasse na época). Aprendi a gostar de bolo de rolo cortado bem fininho, com uma fatia de queijo do reino. E aprendi, sobretudo, a amar o ritual da cozinha e da mesa, a gostar de panelas de ferro, de talheres, de taças.

Aos quarenta anos a minha fome é então dessa comida de verdade, que tem uma sofisticação tão simples, que chega a ser contraditória. A minha fome é de escutar o chiado da assadeira quando derramamos um pouco de vinho para deglaçar o fundo queimadinho e formar um molho. É de fazer de uma batata assada com queijo uma refeição inesquecível, de beber vinho toda noite sem a menor culpa. Sim, quero devorar os meus quarenta anos com toda a libertação que esse número traz. Quero fome.

Batata assada com queijo e ovo cocotte

Sim, uma batata assada pode ser uma refeição inesquecível! Essa receita nos faz entender como a cozinha pode ser simples e sofisticada, despretensiosa e acolhedora. Comida de poucos ingredientes para quem tem muita fome.

Ingredientes:

4 batatas grandes

2 colheres (sopa) de queijo gorgonzola

1 colher (sopa) de salsinha picada

1 colher (sopa) de manteiga

1\2 cebola picada

1 dente de alho picado

4 ovos

Sal e pimenta do reino a gosto

Modo de preparo:

Lave bem as batatas (não descasque!) e embale-as uma a uma em papel alumínio. Leve ao forno até ficarem macias;

Retire as batatas do papel alumínio e corte-as no sentido do comprimento para retirar uma tampa;

Com a ajuda de uma colher, retire a polpa das batatas e amasse bem, conservando o formato da batata;

Em uma frigideira, doure a cebola e o alho na manteiga, junte a polpa das batatas amassada e a salsinha, misturando bem e temperando com sal e pimenta do reino;

Recheie cada batata com um pouco do purê feito com a polpa;

Dentro de cada batata quebre um ovo, tempere com sal e pimenta, acrescente pedacinhos de queijo gorgonzola e leve ao forno até que fique no ponto que preferir (com a gema mais firme ou mais líquida).

Retire as batatas do forno e sirva com salada verde.

 

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