O peso das heranças

O Atlas da Violência 2025 chegou com seus números frios que queimam: 28,9 homicídios para cada 100 mil pessoas negras em 2023. Entre não-negros, 10,6. Uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser assassinada. Não é estatística, é biografia coletiva, é mapa do medo, é geografia da morte que reconhece rostos antes de disparar. Foram 35.213 vidas negras interrompidas naquele ano. Trinta e cinco mil duzentas e treze histórias que não chegarão ao final.
E as prisões? Lá, 70% dos rostos são negros. Quase 600 mil pessoas dentro de muros que nunca foram apenas contenção, sempre foram seleção. A população negra brasileira é 56,7% do total — nas celas, salta para 70%. Matemática que denuncia: o sistema penal tem endereço preferencial, tem cor predileta.
Há quem diga que o passado passou. Que o engenho ficou nos livros, que a senzala é museu. Mas o controle apenas trocou de roupa. Onde antes havia feitor e chicote, hoje há abordagem seletiva e flagrante fabricado. A violência deixou de ser espetáculo explícito para virar procedimento administrativo, burocracia da exclusão. O tronco virou estatística.
Pense nos 11 anos entre 2013 e 2023. A taxa de homicídios caiu, sim, caiu. Entre negros, 21,5% de redução. Entre não-negros, 32,1%. Ou seja: melhorou para todos, mas melhorou desigualmente. A distância aumentou. É como uma corrida onde os dois corredores aceleram, mas um sempre está várias braçadas à frente. A diferença não diminui, cresce. Em 2013, o risco relativo era menor; em 2023, é maior.
Não dá para falar de consciência sem falar de consciência do peso. O peso de carregar na pele a suspeita permanente, a culpa presumida, o alvo invisível. No Nordeste, a desproporção grita ainda mais alto: 41,7 homicídios de negros contra 11,6 de não-negros a cada 100 mil habitantes. Quase quatro vezes. Em alguns estados, cinco vezes. São números que não cabem em gráficos, transbordam para ruas, vielas, manchetes que já não chocam mais de tão repetidas.
Zumbi não foi apenas morto em 1695. Foi esquartejado, exposto, mas suas perguntas continuam vivas: quem decide quem vive? Quem decide quem morre? Quem decide quem merece segunda chance e quem merece algema perpétua? As respostas estão nos dados, estão nas mães que aprenderam a ter medo do telefone à noite.
A consciência negra que se celebra, ou se deveria celebrar, não é vitimização. É lucidez. É recusar a anestesia conveniente que transforma estrutura em coincidência, que chama de “complexo” o que é, na verdade, bastante simples: um país que nunca fez as pazes com sua própria composição racial. Nunca sentou à mesa para acertar as contas. Preferiu esquecer, apagar, e seguir adiante carregando nas costas uma violência que não se nomeia, mas se repete.
Tem algo de assombroso nessa perpetuação. As algemas mudaram de metal para invisibilidade social, para bairro sem saneamento, para escola sem estrutura, para currículo que não passa do RH, para bala “perdida” que sempre encontra o mesmo alvo. O controle racial nunca foi abolido; foi modernizado, tornado mais palatável, diluído em discursos de mérito e oportunidade que esquecem, convenientemente, que a largada nunca foi igual.
Então, 20 de novembro. Não é feriado para esquecer o trabalho. É feriado para lembrar o trabalho que falta: desmontar, pedra por pedra, esse edifício de exclusões que insiste em se camuflar de ordem natural das coisas. Consciência é o primeiro tijolo que se remove. Depois dele, vêm todos os outros, e serão muitos.
Raimundo Fabrício Paixão Albuquerque, Advogado, mestre em sociedade e cultura e professor de direito da Wyden
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