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Junho também é tempo de relembrar Insurreição Pernambucana

Para a grande maioria dos pernambucanos, o mês de junho nos remete às festas juninas. Mas foi em junho de 1645 que foi deflagrada a Insurreição Pernambucana, comandada por João Fernandes Vieira, que foi um dos latifundiários mais ricos da região, mas que os holandeses teriam decretado sua prisão. Poucas semanas antes, era firmado um compromisso, entre 18 líderes luso-brasileiros, para lutar contra o domínio holandês na Capitania de Pernambuco.

Assim nascia o movimento que integrou forças das Batalhas dos Guararapes, entre 1648 e 1649, determinantes para a expulsão dos holandeses do Brasil em 1654. “Pernambuco tem muitos movimentos insurgentes e esse é um deles. A expulsão dos holandeses ajuda na construção dessa percepção de Pernambuco como força política e como região de resistência que faz parte do imaginário coletivo do nosso Estado”, comenta o professor de História do Colégio CBV, Wellington Estima.

“O movimento da Insurreição Pernambucana foi um dos mais importantes no contexto do Brasil Colônia. Os holandeses ocuparam Pernambuco em 1630, que na época era o principal produtor de açúcar. Foi uma espécie de rebelião contra a ocupação holandesa”, acrescenta Estima. De acordo com o professor, esse movimento pernambucano foi fundamental para a expulsão dos holandeses não apenas em Pernambuco, mas também para incitar as rebeliões em outros estados.

“A gente sabe que os holandeses ocuparam o território de Pernambuco e de regiões, como Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte; todos esses também tiveram a presença holandesa. Então o movimento da Insurreição ganhou força em outros lugares, mas com uma dimensão maior em Pernambuco”. Os líderes mais conhecidos na luta contra os holandeses foram Filipe Camarão, André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira e Henrique Dias. Entre os líderes havia um indígena, um homem negro e um grande proprietário de terras, integrando diferentes grupos da sociedade da época.

Os maiores destaques da Insurreição Pernambucana são as duas Batalhas dos Guararapes. A primeira em 19 de abril de 1648, resultando na morte de 500 homens da retaguarda holandesa. A segunda batalha foi em 16 de fevereiro de 1649, com mais uma derrota dos holandeses, que se isolaram no Recife, para se proteger dos ataques dos colonos.

O professor do Colégio CBV cita que outro embate importante foi a Batalha do Monte das Tabocas, travada em 1645 e também encerrada com uma vitória portuguesa. “Tem toda uma ideia, quando a gente vai chegando em Jaboatão, ao ver aquela placa, que a pátria nasceu aqui. A ideia de que aqui houve uma espécie de união de brancos, indígenas e negros, ou seja, de portugueses, indígenas e negros para a expulsão desses holandeses. O que não se constitui como a verdade”, conta.

Estima explica que, nos dias de hoje, a historiografia já é consensual, de que nem a pátria nem o exército brasileiro nasceu naquele local. “Isso porque, primeiro, não existia essa dimensão de nação, não existia esse sentimento de pátria, a ideia de nacionalismo, de formação de um estado nacional, que vai ganhar força no século 19. Essa ideia não era presente no inconsciente coletivo, no pensamento das pessoas ali no século 17”, explica o professor. “Mas ainda assim, é um movimento muito importante, porque a gente tem um levante que vai acontecer a partir da união de forças políticas importantes, de portugueses, de senhores de engenho, que estavam insatisfeitos com a condução das Companheiras Indígenas Ocidentais”.

Esse levante que começa a surgir tem um pontapé inicial, que é a saída de Maurício de Nassau da liderança política na Capitania Pernambucana em 1644, agravando ainda mais a situação econômica na época. “Nassau era a figura política que foi indicada pela Companhia das Índias Ocidentais para comandar a política local. Quando a Companhia o tira do poder, por desavença e discordância da condução política, as decisões começam a ser muito desfavoráveis para os senhores de engenho, que começam esse levante em 1645. Então, o movimento da Insurreição Pernambucana tem cerca de uma década, vai ganhando força até chegar no seu período final em 1654”, relata Estima.

A partir daí, com o início da insatisfação com a saída de Maurício de Nassau, começa uma série de lutas, emboscadas e focos de resistência em vários locais da área do Recife e Região Metropolitana. “Na verdade, tem muitos pontos de estratégia que tiveram batalhas famosas, geralmente a gente se refere ao Monte Guararapes, a batalha ali talvez a mais importante, a mais famosa. Mas também tivemos batalha, por exemplo, na região do bairro de Casa Forte”, cita Estima.

Em 20 de dezembro de 1653, os portugueses cercaram Recife por mar, fazendo um bloqueio para entrada e saída da cidade. Alguns dias depois, em 15 de janeiro de 1654, Recife foi atacada pelos portugueses. Em 26 de janeiro, os holandeses se renderam. Com a expulsão dos holandeses das terras pernambucanas, houve a Restauração Portuguesa (com os portugueses recuperando o trono) e os estrangeiros expulsos seguiram para as Antilhas e começaram a produzir açúcar no novo território. Daqui, levaram mudas de cana-de-açúcar e todo o conhecimento adquirido em 24 anos de domínio em Pernambuco.

A Insurreição Pernambucana fez o Nordeste retornar ao domínio português e marcou também o início da decadência da economia açucareira na época. “Isso também marca o início do declínio de Pernambuco em termos de produção açucareira em nível mundial. Os holandeses vão ser expulsos, vão para as Antilhas e começam a produzir açúcar lá, criando uma forte concorrência para a nossa produção local”. A paz entre Portugal e Holanda só foi possível em 1661, com a assinatura de um acordo mediado pelo Reino Unido, a Paz de Haia.

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