O prato da minha vida


Chef Luciana Sultanum

Por Luciana Sultanum

Muitas vezes me deparo com essa pergunta: “qual o seu prato favorito?” ou “o que você mais gosta de cozinhar?”. Sempre tento pensar rapidamente e acabo respondendo coisas aleatórias, sem muita convicção – o fato é que tento fazer uma lista mental de pratos favoritos e não consigo.

Me pergunto então se outras pessoas, cozinheiros ou não, conseguem responder assim, na lata, sobre seus pratos favoritos…

Os pratos favoritos da minha vida têm a ver com uma série de questões, na maioria das vezes ligadas a processos afetivos ou de memória e nem sempre é possível reproduzi-los. Eles estão ali, presos em um tempo, em um momento, como uma pintura dentro de um quadro.

Eu me lembro de, certa vez, participando de um evento no Festival Gastronômico de Tiradentes junto ao meu amigo César Santos, quando trabalhamos o dia inteiro na cozinha junto a outros chefs, para fazermos um jantar para umas duzentas pessoas.

No final do trabalho, o Juarez Campos me serviu, em um prato fundo, um risoto de linguiça com trufas brancas que ele havia feito para o jantar. Peguei uma colher e sentei no chão da cozinha. Devorei então dois pratos daquele risoto com um prazer tão grande e tão imoral que ali, no chão da cozinha de um hotel em Tiradentes, aquele foi o prato da minha vida.

Mas os pratos favoritos nem sempre estão ligados ao prazer de um paladar já maduro, mas ao desprazer de momentos da infância que só se tornam prazerosos quando na maturidade.

Isso me lembra do ano novo na casa do meu avô, quando ele colocava nozes espalhadas pela mesa e nos mostrava como utilizar o quebra-nozes para quebrar a casca e retirar a noz de dentro. Eu gostava de quebrar a casca, mas não apreciava o sabor das nozes, que comia somente para poder quebrar outra e outra. A noz crua, com fiapos da palha que tem dentro da casca, me levam ao local exato daquela festa familiar, ao cheiro das velas acesas que decoravam o ambiente e ao meu avô, o melhor cozinheiro que já conheci. O sabor das nozes e o barulho da casca quebrada me trazem uma perspectiva totalmente diversa sobre o que significa um prato inesquecível.

O que teria que ter um prato então, para se tornar inesquecível?

Uma comida tecnicamente perfeita em um jantar com pessoas desinteressantes certamente não seria marcada na memória.

Os pratos da nossa vida estão catalogados em um arquivo de páginas e páginas de experiências, de alguma forma representando momentos que, através do paladar, buscamos reviver.

Chef Luciana Sultanum

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