Estesia marca vazio do carnaval com releitura de grande clássico em single, live e intervenção no Rio Capibaribe

A infelicidade do carnaval cancelado pela pandemia é absorvida, processada e restituída musicalmente na releitura feita pelo grupo pernambucano Estesia do clássico “Cantando e Chorando” (popularmente conhecida como “Quando fevereiro chegar”, por causa do primeiro verso), obra do conterrâneo Geraldo Azevedo em parceria com Fausto Nilo. A versão preparada especialmente para uma folia inexistente chegou nas principais plataformas de streaming nesta sexta-feira, dia 15, e conta com a participação nos vocais da cantora, compositora e poeta Nina Oliveira, uma das vozes reluzentes no documentário AmarElo, de Emicida, recém-lançado pela Netflix.

O grupo vai fazer uma transmissão ao vivo pelo Instagram (às 17h) diretamente do Recife Antigo e, em seguida, embarca pelo Rio Capibaribe para uma série de intervenções com projeção de luz e laser na vegetação ribeirinha, nas pontes e nas moradias. O material captado pelo artista visual Felipe Schuler durante a imersão artística será compilado e disponibilizado nos dias seguintes nas redes sociais. “Ocupar e interagir com a cidade na época em que a cidade é mais ocupada, o carnaval. Ocupada por arte, música e gente. Neste ano, não teremos isso e nossa proposta é dar novo sentido a essa ocupação. Viver o carnaval em casa, apelando para o lado bom da saudade e das memórias”, diz Miguel Mendes.

A regravação do Estesia investe na ressignificação da música à luz da ausência afetiva, cultural e social provocada pelo vazio da folia em 2021. Em vez da ansiedade despertada pelos versos “quando fevereiro chegar”, a canção invoca a memória, factual e afetiva, de festejos passados e a esperança do retorno de uma “normalidade” celebrada pela multidão nas ruas. “Em um ano em que a nossa maior festa de rua precisou ser cancelada por causa de uma pandemia, queríamos retomar essas memórias a partir desse sentimento da saudade e da espera. Um carnaval diferente, em que seguimos cantando e chorando”, observa o vocalista Carlos Filho.

Conhecido por provocar e envolver o público dos shows em experiências sensoriais através de recursos auditivos e visuais, o Estesia pretende fazer do single Quando fevereiro chegar uma passagem para carnavais (e emoções) de outrora, individuais ou coletivos. O arranjo da música segue o compasso de um coração em uma sutil referência à relação de afeto gerada pela folia de Momo. “Queremos que as pessoas escutem a música e evoquem suas memórias, seus carnavais, seus sonhos; imaginem um tempo que passou e projetem o tempo que está por vir. Queremos que essa música provoque arrepios, calor e a vontade de sonhar o passado e o futuro”, afirma Miguel Mendes.

A escolha de Nina Oliveira para a parceria na música ocorreu em consequência de uma participação dela em apresentação do Estesia em São Paulo. “A presença dela foi incrível. Ficamos com aquela sensação de que precisávamos lançar algo juntos”, continua Carlos. Considerada um fenômeno da internet, a cantora se prepara para lançar um trabalho próprio em 2021 depois de colher participações elogiadas em festivais como Lollapalooza, Bananada e Febre e de cantar ao lado de Chico César, Maria Gadú, Liniker e Xênia França.

A capa do single espelha a melancolia da ausência com o descolorido de um personagem mascarado e soturno do carnaval pernambucano e é assinada pela artista visual Luara Olivia, nome por trás de dois clipes do Estesia (Mais Um Lamento e Dissentir).

ESTESIA: O grupo é formado por Carlos Filho, Cleison Ramos, Miguel Mendes e Tom BC e reconfigura espaços, linguagens e sentimentos nas apresentações desde 2016 em shows interativos e imersivos. A palavra “Estesia” é um estado de mobilização sensorial do corpo para perceber as coisas que nos cercam. Esta ferramenta poderosa da experiência humana, entretanto, não é assunto de debate na vida cotidiana.

A palavra “estesia” está presente em quase todas as línguas de origem latina, porém o uso mais comum é com um radical negativo, “an-estesia”. Os processos de consumo de cultura de massa tratam o espectador como “público-alvo”, tentando limitar a percepção do receptor ao que foi concebido e disponibilizado pelo autor. Vive-se uma vida de experiências sensoriais “anestesiadas”, uma vez que estas, regra geral, não tratam o processo artístico como uma vivência solidária com o público. Afirmar a importância da palavra “estesia” no cotidiano é defender espaços de polissemia, ambientes em que a obra está aberta para interpretação e reinvenção coletiva. O grupo tenta construir essas pontes de comunicação possíveis em que o público não é apenas ouvinte passivo.

O lançamento de Quando fevereiro chegar não é a primeira incursão artística do grupo movida pelo desterro social provocado pela pandemia. Em junho do ano passado, o grupo lançou clipe feito durante o confinamento para reproduzir sensações impostas pela condição de solitude necessária frente à crise sanitária.

Em seguida, iniciou o projeto “Estesia 1pra1”  para adentrar o processo criativo do quarteto. Através de ligações, mensagens e áudios de WhatsApp, fotos, resgate de e-mail e conversas antigas, eles compartilharam com o público memórias sonoras e até inseguranças. “A gente estava bem reticente com relação às lives, porque nossos shows sempre foram muito imersivos. Neste experimento, a gente parte do particular para sensações universais – de medo, insegurança, a dúvida de lançar ou não, de ter concluído ou não – pelas quais todos passam na vida”, conta Tomás Brandão.

No “Estesia 1pra1”, a conexão foi alicerçada em recursos tecnológicos que criaram no espectador a sensação de estar em outros lugares, imerso em diferentes ambientes, e, por outro lado, próximo de quem conduz a experiência. Criar pontes para que o público ocupe outros espaços, inclusive de recriadores da própria obra de arte vivida, foi o grande fio condutor do roteiro.

SERVIÇO

Lançamento de Quando Fevereiro Chegar

Quando: sexta-feira, dia 15/01

Onde: Principais plataformas musicais de streaming

Live: às 17h

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